terça-feira, 30 de junho de 2009

As religiões e a religiosidade


Para o horror daqueles que consideram as religiões como o ópio do povo, em pleno início de século XXI, o mundo ainda está dominado por elas. Pensando nisso, cheguei à conclusão de que por estarmos perto demais do tempo em que quem mandava eram os homens de batina, não conseguimos nos desvencilhar das consequências de anos do pensamento limitado pela religiosidade. O tempo em que as posturas de comportamento no tecido social era ditadas pelos senhores ditos responsáveis pela palavra de um Deus, ou de muitos deuses, cá entre nós, reles habitantes da Terra, para bilhões ainda não passou e, mesmo para aqueles que já ensaiam pensar por si mesmos, afastando os dogmas teocráticos, esse tempo ainda não passou direito.

Digo isso porque tenho exemplos claros em mim mesmo, em minha família e nos próximos a mim desse apego à religiosidade pragmática. Para mim, que creio, o que posso dizer de Deus é que sabemos tão pouco sobre Ele que aceitar (e sustentar) verdades imutáveis é leviano, e do pouco que sabemos, achar que Ele está em alguns lugares, junto com algumas pessoas, e com outras não, é menosprezá-lo. Se a ciência vem comprovando a interligação entre os eventos físicos, como crer num Deus superior e tentá-lo explicá-lo com a lógica humana (muitas vezes encontrada séculos e séculos atrás)? Como achar que toda forma de manifestação de qualquer coisa (escusas pela redundância) não é de Deus? A questão é que moldamos Deus à nossa própria lógica e aos nossos interesses, há séculos. Construímos e destruímos impérios, mudamos os deuses às vezes, mas em regra, não vivemos desacompanhados de divindades. Talvez por isso, mesmo preferindo acreditar na livre relação com a religiosidade e com a espiritualidade (mas relação contínua), do que no pragmatismo individual de buscar Deus num templo e deixá-lo por lá mesmo, para só re-encontrá-lo na próxima oportunidade, não deixarei de batizar meu filho.


É difícil debater um assunto que não é posto no rol das ideias que podem e devem ser aperfeiçoadas ao longo da vida. Religião não se discute, não se muda; segue sempre a mesma e deve ser passada de geração em geração. Esse é o clichê. E é daí mesmo que advém os problemas. Não chegarei no jogo político da religião no Império Romano, nas Cruzadas e nas guerras religiosas da Europa medieval, e nem debaterei o catastrófico catequismo dos indígenas no Brasil, nem o conflito Israel x Palestina ou o poder dos aiatolás no Irã. O que quero apontar é que, mesmo dominando inúmeras tecnologias, globalizando o mundo e já preocupando-se em minimizar os estragos, o homem não deixa de ajoelhar-se, de considerar-se parte de uma ordem maior. Há teorias, teorias e teorias, mas a fé, embora por vezes calada, continua lá, como sempre esteve.


Pensando sobre o assunto, a tentação de ir adiante numa direção ou em outra é enorme. Mas limitar-me-ei a só reafirmar: apesar de todo o mais, não abandonamos os deuses.


E pra não ficar chato, vai a minha história preferida sobre religião, de autoria desconhecida.

"Um jovem rabino, inquieto com os mistérios da religiosidade, decidiu abandonar seus estudos e partir numa viagem pelo mundo. Dizia aos seus superiores que devia haver um motivo para que tantas pessoas vissem Deus com perspectivas diferentes, e estava disposto a descobrir por que todos não seguiam a mesma religião, por que tantos guerreavam em nome de suas verdades religiosas, por que não se entendiam. Mesmo desaconselhado pelos mais velhos, partiu.


Viajou por anos, conheceu todo o tipo de lugares e pessoas, e tomou extensos apontamentos. Registrou histórias de povos e suas crenças, conheceu pontos de vista diametralmente opostos sobre as mesmas crenças, foi de porta em porta nos lugares onde esteve, não perdeu uma única oportunidade sequer de conversar com os sábios e doutos sobre os princípios que regiam cada religião. Foi envelhecendo e, certo dia, deu-se por conta que o peso de seus diários de viagem já era grande demais para ser carregado, bem como que estava cansado. Frustrado, decidiu retornar.


Ainda longe de seu país, mais confuso do que quando jovem, parou para descansar numa sombra, à beira de um milharal. Observou um agricultor adubando pés de milho ainda pequenos, que ao lhe ver, foi ter com ele, ofereceu-lhe água e olhou com admiração para seu tipo físico e para todo o aparato de coisas que carregava. Tímido, bradou:


- O senhor deve ser muito importante. É um homem letrado, não tem as mãos calejadas do trabalho duro debaixo do sol. Fico feliz pelo senhor, gostaria de saber ler também...

- Não pense que é tão bom assim, amigo... Estou convicto de que você, mesmo sem saber ler, consegue dormir em paz à noite, encontra um motivo para seguir adiante todo o dia. Há anos saí para procurar o meu motivo para seguir em frente, e devo confessar-lhe que não obtive sucesso.


Humildemente, o agricultor se ofereceu, solícito:


- Ora, mas tudo há de ter uma razão doutor... se o senhor disser o que é, posso lhe ajudar a procurar, dentro do possível.


O viajante riu por dentro, mas o brilho no olhar daquele homem simples tocou seu coração. Não lhe custava compartilhar um pouco da sua angústia, mesmo que fosse para fazer aquele homem rude se sentir importante.


- Procuro Deus, meu caro. Há muitos anos estudo os textos sagrados do meu povo e de vários outros povos, tentando entender por qual razão Ele não aparece a todos nós da mesma forma, por que permite que tantas coisas diferentes sejam ditas e ensinadas sobre Ele. Procuro entender seus caminhos, para me aproximar dele, procuro saber onde Ele está e que o espera de nós.


O agricultor escutou atento, arregalando os olhos. Baixou a cabeça, colocou a mão no queixo, olhou os campos ao seu redor, em um profundo silêncio. O já não mais jovem rabino sorriu, pronto para agradecer a água e seguir viagem, quando escutou as palavras mal articuladas do homem do campo, que contemplava, respeitoso, o anoitecer chegando no horizonte:


- Óia... eu não conheço outras religiões, e nem mesmo li sobre a minha. O pouco que sei da vida, aprendi por mim. E o senhor veja, eu planto milho... daqui da minha terra até o armazém da cidade, onde vendo o que colho, é um longo caminho. Eu posso escolher ir de balsa, onde posso colocar todo a produção, e viajar devagar pelo leito do rio. Eu posso também colocar uns sacos no lombo do burrinho que eu tenho e ir pela estrada, ou posso alugar uma junta de bois-de-carro e levar o meu milho e dos meus vizinhos de carroça. Indo pela estrada, eu posso atalhar por uma floresta, encurtando meu caminho, posso tentar passar pelo meio de um banhado e ganhar um dia de viagem, ou posso seguir ou duas encruzilhadas diferentes... dependendo do jeito que eu ir, levo mais ou menos milho, e demoro mais ou menos tempo pra chegar...


- Entendo, entendo - disse, em tom de impaciência, o viajante. Mas o que o senhor quer me dizer, onde está Deus no meio disso tudo?


- Pois é isso, doutor... é que não importa o jeito que eu resolver fazer a viagem, e nem importa tanto o quanto eu vá demorar pra chegar. Quando eu chegar lá , o dono do armazém não vai querer saber como eu vim, quanto tempo demorei ou por onde estive... ele só vai querer saber se o milho é bom."









terça-feira, 23 de junho de 2009

A educação e os que dela precisam

Hoje falei bastante sobre educação. Isso não chega a ser uma novidade, até porque qualquer conversa séria em que sejam analisados ou mencionados en passant os problemas morais, sociais, jurídicos, políticos, econômicos e até esportivos nacionais - como o jogador da seleção brasileira que, pasmem, nunca tinha visto nenhuma imagem da histórica vitória canarinho sobre a Itália na final da Copa de 70 -, invariavelmente descamba para a fórmula mágica: "a solução está na educação". Ou seja, a educação virou um lugar-comum, embora se trate do mais importante lugar-comum em que se possa chegar. Porém, causa-me arrepios a chegada a esse ponto de convergência, quando as cabeças param de balançar e a discussão ora acalourada por instantes cessa (prefiro muito antes o antagonismo extremo, muito mais fecundo e, porque não, divertido, quando usado com moderação).

Seja tratando da efetivação de direitos fundamentais, seja fazendo referências às mazelas do Senado Federal, seja opinando sobre os rumos que deveriam ser oferecidos aos jovens de hoje e sempre, a educação é aquele norte inalcançável, pouco palpável e extremamente abstrato, mas que é trazido para o bojo das discussões como se fosse uma realidade em plena construção ou uma possibilidade imediata. Não raro, esquecemos que o conceito de educação é tão amplo quanto a nossa estrutura social, e engloba não só a formação escolar, cidadã e acadêmica, mas todo e qualquer tipo de aprendizagem que pode chegar a nós por outrem ou (porque não) por nossa própria reflexão, em qualquer etapa da vida - seja ele "bom" ou "mau".


Apenas começando a pincelar ideias que podem (e devem) ser aprofundadas por mim neste humilde espaço e por todos em qualquer atividade - pois a educação é um problema habitual de qualquer um que conviva em sociedade -, vão aí algumas sugestões (sem nenhuma pretensão de exaustividade, embora propositalmente afastadas das quimeras teóricas) que considero adequadas e inadequadas, quando se reflete sobre educação.


- a base de educação escolar não pode ser desprezada. Começamos nosso aprendizado ainda bebês, e é nas primeiras fases da vida em que desenvolvemos a estrutura de nossas capacidades intelectivas. O ensino fundamental e médio, respectivamente, devem ser tomados como prioridades absolutas do Estado e o controle da qualidade do conhecimento ofertado deve ser rígido - ao contrário do que ocorre hoje, com a quase ausência de controle de ensino nos primeiros anos de aprendizado e a valorização não indevida, mas isolada e estruturalmente estigmatizadora do ensino superior como o meio salvador de nosso subdesenvolvimento.


- nenhum projeto de educação funciona a curto prazo. Desculpem-me os que pensam ao contrário, mas entendo que mudanças significativas não podem ser planejadas com escopo de efetividade para períodos menores que 10 anos. Essas modificações são lentas, mas se iniciadas com profundidade, seriedade, estratégia e continuidade podem demonstrar resultados satisfatórios. Isso, porém, se tratadas com a consciência de que a mão que lança a semente não pode almejar colher os frutos.


- Uma melhor distribuição de competências e verbas é imprescindível. A divisão do ensino determinada pela Constituição da República de 1988, que dá, grosso modo, o ensino fundamental para o município, o ensino médio para o estado federado e o ensino superior para união deveria ser fulminada, pois o ente que concentra mais recursos e poderia honrar o princípio da igualdade, estabelecendo programas de ensino de padrão elevado e de amplo alcance à população, possui a competência de custear o fim da cadeia, onde poucos privilegiados (como eu) que tiveram uma base sólida nas etapas anteriores podem disputar e obter o financiamento de seus estudos superiores e formação acadêmica. Podem me crucificar, mas considero que se a União deixar para as entidades privadas o ensino superior, concentrando seus esforços e recursos na (difícil mas não impossível) construção de uma base sólida do ensino fundamental, um primeiro passo rumo a uma divisão mais justa estaria dado.


- Livros, livros e mais livros. Se não pudermos chegar a consenso algum mais, que pelo menos ensinássemos os brasileiros, desde cedo, a ler e a gostar de ler.




sábado, 20 de junho de 2009

Doação de sangue


Ontem, 19/06, resolvi doar sangue. Não o fazia há tempos, mas acredito tratar-se de um gesto que ao fim e ao cabo se mostra útil, pois alguém pode precisar para lutar por sua vida - aquele argumento que quase todos nós conhecemos. Porém, o que me leva a escrever é o caminho que tive que percorrer até a doação.


Minha cidade, São Leopoldo, tem cerca de 210 mil habitantes e um hospital municipal (Hospital Centenário - http://www.hospitalcentenario.com.br/). Não vou falar na presteza dos servidores para atender os precisados e os que os acompanham, que é tenebrosa, já senti na pele, e nem da qualidade de seus serviços médicos - apesar de já ter ouvido histórias horríveis a esse respeito. Atenho-me somente a um fato: não há banco de sangue no hospital. Mas engana-se quem pensa que nunca houve: havia, e inclusive já doei sangue lá (a última vez em 2005, acredito). Mas, tratando-se de atividade tão importante... por que acabar com ela?


Por trabalhar em outra cidade (Porto Alegre), poucas vezes tive chance de procurar o Centenário para doar sangue. Meu porte físico avantajado proporciona-me, imagino, considerável quantidade de sangue, fazendo que a doação de 500ml não me acarrete nenhum efeito colateral considerável, razão pela qual não havia, até então, feito uso da doação para cabular o trabalho. Hoje, para não retornar de férias numa sexta-feira, uni o útil ao agradável e busquei o Centenário. Lá, informaram-me que o banco de sangue era coisa do passado e que, se eu quisesse, que procurasse o Hospital Regina, na vizinha cidade de Novo Hamburgo. Para lá me dirigi.


Ao ser (muito bem) atendido, soube que o banco de sangue do Hospital Regina encaminha sangue para o Hospital Centenário, além de atender os outros dois hospitais de Novo Hamburgo e o da cidade vizinha de Campo Bom. Por insistência minha soube, também, que o motivo para o banco de sangue do Centenário não funcionar é, pasmem, a ausência de alvará.


Sim, vocês leram bem. Um hospital municipal com um banco de sangue sem alvará. Acredito que vocês não se surpreendem tanto porque, como eu, são brasileiros e estão acostumados com a nossa capacidade de criação de situações absurdas e inimagináveis. Por aqui, a vida supera, e muito, a arte. Contudo, uma temeridade não deixa de ser uma temeridade por temeridades serem corriqueiras. Até a própria atendente, que primeiro me deu essa infeliz informação (posteriormente confirmada) e grafou minha profissão de assessor jurídico como "acessor", bradou, balançando negativamente a cabeça: "como é que pode, né, sem alvará não dá!"


Não importa que o licenciamento burocrático não se limite a alvarás, não importa se a notícia é velha. Importa, isso sim, que um importante serviço não está sendo prestado, importa que o descaso com serviços públicos essenciais no nosso país, como a saúde, é uma vergonha. Por ora, só me resta torcer para que ninguém (inclusive eu) precise de uma tranfusão de sangue urgência em São Leopoldo, como em outras tantas cidades cujos hospitais não possuem estoque suficiente.


E, enquanto isso, seres onipotentes, do alto de nuvens coloridas, discutem tenazmente sobre a soberba contribuição do próprio som de suas vozes para a efetivação de direitos fundamentais no Brasil...


sexta-feira, 12 de junho de 2009

O curioso caso de Benjamin Button


Apenas há poucos dias assisti ao comentado filme "O curioso caso de Benjamin Button", que foi indicado ao Oscar passado. Trata-se da história de um homem que percorre o caminho oposto da vida: nasce idoso, e aos poucos vai ficando jovem. A ideia não é original: o filme é baseado num famoso conto escrito em 1920 por F. Scott Fitzgerald sobre um homem que nasce aos 80 anos e vai ficando mais jovem a cada dia que passa. O mérito da película é contá-la com maestria, demonstrando todas as vantagens e as desvantagens práticas que essa inversão implica: o choque do pai, que o abandona, a dificuldade de aceitação, convivência e aprendizado, o isolamento, os laços amorosos, a impossibilidade de se envelhecer ao lado de quem se ama e de criar filhos, a vida vivida em plenitude e a valorização de cada segundo dela. A atuação de Brad Pitt (foto) é excelente, a fotografia é impecável e a qualidade do elenco surpreende. E outro detalhe: o filme não perde o foco da personagem central, ou seja, a história é bem contada tanto quanto à situações inusitadas decorrentes dessa inversão biológica - cuja causa é posta à reflexão do espectador, não sendo, inteligentemente, explicada -, quanto à personalidade e ao caráter de Benjamin Button. Recomendo.

Durante o filme, lembrei-me de meu falecido avô, Luís de Oliveira, português de Trás-dos-Montes que imigrou para o Brasil com 4 anos de idade, e se orgulhava de ter sido a primeira pessoa a guiar um carro na cidade em que viveu e morreu, Sete Lagoas (MG). Não convivi muito com ele, mas em certa ocasião, com sua característica simplicidade, ele disse: "um filho não pode morrer antes que um pai. Isso não está certo". É que o filme começa contando, brevemente, a história de um joalheiro cujo filho morreu na 1ª Guerra Mundial. Só depois de ser pai é que descobri a plenitude da razão das palavras de meu avô.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Laicismo

Não raro me deparo com pessoas confundindo as dimensões do humano, mormente no que tange à religiosidade, umas tentando depreciar opiniões de pessoas que cultivam a espiritualidade por entender que não podem elas ser racionais o bastante e que tudo gira em torno de sua fé, outras estigmatizando aqueles que em nada crêem além de si mesmos como vazios de sentido e, por consequência, de credibilidade. Sempre pensei que a religiosidade é pessoal demais para ser levada a discussões públicas. Apesar de cristão, não gosto de ver crucifixos em prédios públicos e sessões de julgamento, e não vejo sentido na proteção de Deus invocada no preâmbulo da Constituição da República de 1988. É algo pessoal demais. Porém, trata-se de um assunto polêmico, e sempre gostei de polêmicas (discussões religiosas e políticas, futebolísticas são as minhas favoritas, no sentido contrário do dito popular que propaga que tais assuntos não se discutem).

Como muitos sabem e outros tantos ignoram, o Brasil é um Estado laico, ou seja, não propugna nenhuma fé, não há religião oficial. Porém, nossa história é católica demais e muitas pessoas têm dificuldades em deixá-la de lado ao tratar da coisa pública (vide crucifixos em plenários de tribunais e repartições públicas e Deus no preâmbulo da Constituição). A Igreja Católica quase sempre foi uma instituição desastrada politicamente, e a cada dia o desafio é deixá-la em seu lugar, ou seja, na própria paróquia, longe de discussões importantes como o uso de células-tronco para pesquisas, legalização do aborto, abertura do comércio em feriados etc. Aliás, essa é a única parte boa do cunho religioso estatal: os feriados religiosos.

Para terminar, encontrei o texto de um autor que deve estar começando, e resolvi dar uma força pra ele publicando suas palavras. Quem sabe um dia ele chega lá!


Laicismo

"Anda acesa a questão do laicismo, a meu ver em termos não muito claros, porquanto parece querer ignorar-se a questão fundamental que subjaz ao debate: crer ou não crer na existência de um deus que, não só terá criado o universo e portanto a espécie humana, como virá a ser, no fim dos tempos, o juiz dos nossos cometimentos na terra, premiando as boas acções com a admissão num paraíso em que os eleitos contemplarão a face do Senhor durante toda a eternidade, enquanto, também por toda a eternidade, os culpados de acções más arderão no inextinguível fogo do inferno. Esse juízo final não será fácil, nem para deus nem para os que vão ter de prestar contas, pois não se conhece um único caso de alguém que, em vida, tenha cometido exclusivamente boas acções ou más acções. O próprio do homem é a inconstância nos propósitos e nos actos, sempre a contradizerem-se de uma hora para a outra. No meio de tudo isto, o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ser vítima de um suposto laicismo “agressivo”, nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.

Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras"

José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura, para quem não captou a ironia anterior).

terça-feira, 9 de junho de 2009

Soneto da volta do tempo

Em meio aos ventos que se foram
Há sopros de suspiros que nunca irão
Lembrar dos olhos que não viram
E nem mais enxergarão

Passado o momento deixado
Torna-o a lembrança eterno refém
O gosto da esperança ora facultado
Morre, sem mais, em pleno desdém

Tinha a linha do tempo que existir?
A mim, nunca se me trouxe glória!
Por que então não se fez eterno o porvir?

Quisera eu sem arrependimento algum seguir!
Porém, não se pode tudo transformar em vitória
Nenhuma honra há num eterno sorrir

Marcus

domingo, 7 de junho de 2009

Duas breves colocações

"Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos... Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"

Desconheço o autor dessa frase, mas poucas me chamaram tanto à reflexão. Ainda não refleti o suficiente sobre ela para comentá-la devidamente, mas adianto que, pelo que estou aprendendo e apreendendo das coisas, situações e ideias que se me apresentam, as futuras gerações serão melhores do que nós estamos sendo para o nosso planeta. Mais, fica para o futuro.


Uma importante empresa de jornalismo do Rio Grande do Sul, a RBS, iniciou há poucos dias uma intensa campanha contra o crack.

Figuras públicas, os maiores times de futebol (Internacional e o meu Grêmio) e pessoas conhecidas dos gaúchos literalmente "vestiram a camisa" da campanha. Considero tal iniciativa importante, visto que os efeitos nefastos e mortais da droga não eram de todo conhecidos da população em geral. Após uma recente tragédia no âmbito de abastada família de Porto Alegre, que culminou no assassinato do filho viciado pela própria mãe, as atenções dadas aos usuários que estão tendo suas vidas destruídas por essa droga que pode viciar no primeiro ato de consumo e que deteriora a saúde física e mental de seus usuários de forma fulminante foram maximizadas.

Nada contra a campanha. Contudo, fica a minha indagação: e os esclarecimentos sobre os efeitos maléficos de outras drogas até mais comuns, como a maconha e a cocaína, onde ficam? Será que esse veículo de comunicação teria coragem de também se posicionar contra o uso da maconha - já tido como fato comum e aceitável por alguns de seus comunicadores, publicamente, como Wianey Carlet, inclusive?

Os problemas principais do tráfico de entorpecentes, quais sejam, os diversos crimes que inexoravelmente fomenta e a destruição da saúde dos usuários, não são exclusivos do crack ou das drogas pesadas. Afetam, e muito, também aqueles que "simplesmente" fumam um ou outro cigarro de maconha, pessoas que são, sim, co-responsáveis por alavancarem o prolixo sistema de deterioração social ligado à atividade tóxico-mercantil.

Sei que, a juízo de muitos, essa ideia é retrógada e ultrapassada. Discordo, e marcho em sentido contrário a qualquer ideia que defenda a tolerância ao uso e comércio de substâncias entorpecentes. Para não entrar em um extenso campo de discussão, limito-me a afirmar que não conheço uma pessoa honrada e digna de minha admiração que fume maconha ou use outras drogas. Pelo contrário, quanto a usuários de drogas, só vejo exemplos (muitos, aliás) de indivíduos de moral duvidosa e hábitos sociais egoístas, pessoas que não constroem nada de produtivo para ninguém e só estão preocupadas com a satisfação de seus desejos imediatos. Pessoas que, em síntese, pouco se importam com o destino da sociedade da qual fazem parte e do planeta que habitam.

Quem usa drogas, a exemplo da opinião do deputado federal Sérgio Moraes, "se lixa" para toda a sociedade, seja para sua própria família, seja para aqueles que caminham em direção a caminhos obscuros ao participar da produção e fornecimento da substância utilizada, seja para si mesmo. Lamentavelmente, é o que enxergo como sendo verdadeiro.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os presos do Brasil


Aqui no Rio Grande do Sul, atualmente os meios de comunicação têm dado grande ênfase à crise do sistema carcerário (ao lado, foto do pavilhão C, 3ª galeria do Presídio Central de Porto Alegre). Há, em suma, um beco sem saída. De um lado, o Estado, financeiramente "quebrado", há muito não tem tido a construção e manutenção de presídios e necessário aumento do efetivo dos servidores do corpo carcerário como uma de suas prioridades, o que ocasionou uma aglomeração sub-humana nos presídios, verdadeiro depósito de pessoas que, em regra, não lograram viver em sociedade sem infringir a lei penal, bem como uma situação tenebrosa de trabalho para agentes penitenciários, assistentes sociais, psicólogos e outros profissionais que atuam no âmbito da execução de penas privativas de liberdade. De outro, há juízes e desembargadores preocupados com as condições desumanas vivenciadas pelos detentos, uma vez que a prática da execução das sanções infringe diversos princípios constitucionais, em especial o maior deles, o da dignidade da pessoa humana, que tentam resolver a questão dentro da razoabilidade que entendem possível, seja soltando réus condenados até que haja vagas, seja deferindo prisões sem a expedição de mandados à força policial, seja decidindo não prender aqueles que não tenham cometido crimes de exacerbada violência, seja interditando presídios e pressionando o Executivo, seja permitindo que réus que cumprem pena nos regimes semiaberto e aberto permaneçam no ficto regime da prisão domiciliar até que haja vagas em alguma prisão compatível. Por fim, há também o lado mais frágil da questão, o dos próprios presos. Como o debate tem se aprofundado entre os dois primeiros lados e suas mui potentes vozes, falarei desse lado considerado mais culpado, que não tem tido vez nos debates levantados até então.

Antes, para me fazer compreender, esclareço:

- sou absolutamente contra a pena de morte;
- entendo que quem comete ato definido como infração penal (seja crime ou contravenção) merece ser punido, para seu próprio bem e para o bem da sociedade;
- sei que a falta de perspectivas, recursos e amparo facilita o ingresso de pessoas na carreira criminosa, mas estou convicto de que, em suma, a pobreza não explica o crime em si e que há muito mais do livre-arbítrio de cada um numa ação delituosa do que qualquer outro fator (com a exceção dos inimputáveis, obviamente);
- estou certo de que o problema não tem solução a curto nem a médio prazo, demandando uma mudança de mentalidade geral, seja do Executivo, que tem que construir mais presídios, seja do Judiciário no que tange à necessidade da punição efetiva, antes da recuperação, respeitada a dignidade de cada detento, seja do Legislativo, que muitas vezes se omite quando deveria cobrar soluções do Executivo para o problema, seja da população em geral, que dá de ombros para aqueles taxados de criminosos e se arrepia quando ouve falar que um presídio pode ser construído nas redondezas.

Dito isso, eis a questão que me irresigna: as autoridades falam, a imprensa fala, mas os presos não: ninguém os ouve ou se interessa em ouvi-los.

Em princípio, admito, parece uma incoerência. Afinal, o que teria a dizer um transgressor das regras sociais, mesmo sobre suas condições na prisão? Pode um homicida, um estuprador, um estelionatário, um traficante, um surrupiador do patrimônio alheio, pode algum deles ter voz em qualquer discussão relevante? Eu mesmo respondo: cada um deles pode e deve.

Em primeiro lugar, entendo que o paradigma de que existe uma divisão clara entre criminosos e cidadãos de bem deve ser desfeita. Não que essa diferença não exista; porém, trata-se de uma linha tênue, se for bem observada. Tendo em vista que criminoso é aquele que comete um delito (ou crime, conduta punida com reclusão ou detenção, ou ainda o anômalo crime de posse de entorpecentes, que não prevê pena privativa de liberdade alguma em nossa atual legislação), se não levarmos em conta apenas aqueles condenados pelo Estado, seria difícil achar quem nunca tivesse cometido um crime. Pense bem: você conhece alguém que nunca tenha ou dirigido embriagado - com alto teor alcóolico ou causando risco com sua manobras -, ou difamado/caluniado/injuriado terceiros, ou usado substâncias ilícitas, ou lesionado outrem, ou comprado produtos de origem ilícita sabendo da sua natureza, ou feito cópias ilícitas de músicas, livros ou vídeos, ou achado coisa alheia e não devolvido, ou se apropriado de outra forma ilícita de algo que não era seu, ou portado arma de fogo ilegalmente, ou pescado ilegalmente, ou ... os exemplos são inúmeros. Talvez monges isolados da vida social ou religiosos reclusos tenham suas "fichas" limpas. Mas eu não ponho a mão no fogo por ninguém.

Ora, é sabido que o Estado não consegue investigar e punir todas as condutas criminosas. Veja-se o exemplo de nossos dirigentes políticos, muitos e muitos com alguma "bronca" na justiça, que efetivamente não são punidos, embora não raro sejam investigados e processados. É simplesmente impossível a punição de todos os crimes, mas nem por isso eles deixam de ser sistematicamente praticados, muito embora não nos demos conta dessa realidade. Alguns são punidos, tão somente alguns. Presumo, pelo número de presos no Brasil (cerca de 400.000, não todos com sentença condenatória, gize-se), que até 1% da população já tenha recebido sanção penal, considerando também nessa estimativa que já cumpriram pena. Lado outro, presumo que semelhante percentual nunca tenha cometido um crime sequer.

Não ignoro o princípio da não-culpabilidade (presunção de inocência) e muitos outros aspectos, dentre os quais a inexatidão científica do que estou dizendo, excludentes penais, etc. Porém, entendo que, no fundo, há essa questão sobre a qual deveríamos pensar mais: será que somos tão diferentes daqueles que estão presos, será que aqueles que povoam o cárcere não são também humanos como nós, só que talvez tenham cometidos mais crimes, a ponto de por alguns deles terem sido condenados?

Eis, enfim, a questão: por que os presos (eles mesmos, não seus advogados) não são ouvidos a respeito de sua própria situação de vida? Nem se precisaria ir aos presídios: há muitos deles cumprindo pena nos regimes aberto e semiaberto que trabalham e poderiam dar testemunho à imprensa de sua condição. Por que a parte que é a mais afetada da questão fica de fora de qualquer discussão ou debate? Sinceramente, gostaria que nas reportagens que são feitas sobre as condições das prisões não se ouçam apenas juízes, promotores e policiais, mas também presidiários, a respeito das condições de vida que lá encontram. Gostaria de ver mesas de debate formadas com esses profissionais, mas também com ex-detentos, por exemplo, que dessem testemunho do que já vivenciaram atrás dos muros da prisão. Entendo que não se trata de anjinhos, mas não vejo nenhum empecilho para que a voz deles também seja ouvida.

Preso não tem peso político: não vota quando condenado com decisão transitada em julgado (não passível de recurso), visto ter seus direitos políticos suspensos. Mas nem por isso deixa de ser cidadão, no sentido subjetivo do termo. Além disso, há muitos deles no cárcere sem condenação, presos provisórios, que amanhã ou depois podem retornar ao convívio social. Ignorá-los todos é ignorar uma parte de nós mesmos, é achar que podemos tomar racionalmente a complexidade da questão como observadores e críticos que somos, desprezando a experiência (nefasta) daqueles que se espremem entre outros corpos, em locais onde jamais deixaríamos sequer nossos bichos de estimação.

Resumindo, gostaria de ver a imprensa entrevistando os Joãos e Josés dos Anzóis que, embora em regra culpados, aguardam, no silêncio daqueles que bradam mas não são ouvidos, a volta à liberdade sem dignidade e com a esperança (se é que há) de um futuro melhor se esvaziando a cada instante.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A amizade e o fim da amizade

Começo dizendo o óbvio (até porque o óbvio, mesmo que ululante, deve ser dito diversas vezes): estive um tempo afastado, mas este blog não morreu. Confesso que fiquei feliz pelo fato de mais de uma pessoa ter me questionado acerca da ausência de postagens. Afinal, mesmo que o destinatário final dessas palavras seja eu mesmo, ou em último caso o leitor-gasparzinho, é bom saber que alguém as lê, apesar de não as comentar. Em qualquer caso, te cuida, Reinaldo Azevedo!

Hoje, dois episódios me levam a falar de amizade. O primeiro ocorreu quando, indo sacar dinheiro, encontrei um amigo distante, que há muito não via. Sujeito mais ou menos, mas com quem já tomei diversas cervejas e que sempre me tratou muito bem. Ele chegou ao lado do meu carro, onde estavam, intrépidos na luta contra o frio, a Juliana e o Felipe. Não os viu, e falou comigo apenas coisas daquelas que se falam no reencontro de amigos já distantes: boa surpresa te ver, temos que nos falar, como estão as coisas, vamos nos ligar, mesmo (percebi que ele nem sabia que meu filho nasceu há mais de quatro meses). O segundo ocorreu quando, já no firme andar da madrugada, deparei-me com um e-mail de outro amigo, este bem mais do que menos, com quem já tomei considerável parte da produção das cervejarias nacionais, mas com quem tenho inúmeras divergências, questionando, de modo geral, por que as coisas mudam entre os amigos. Daí o título dessas colocações.

Acontece que, por mais desesperançoso que pareça, a amizade dura no convívio e se perde na distância. Amigos, salvo raras (e lindas) exceções, são amigos quando juntos, passando ao processo de retorno à estranheza quando da cessação do convívio. É duro e parece plenamente negável por exemplos próprios, mas é assim que as coisas acontecem, inexoravelmente. Explico.

A amizade entre as pessoas, ao contrário do amor carnal, é leve, isenta de ciúmes, convive bem com outros amores semelhantes e penetra profundamente no coração daqueles que a possuem, geralmente sem dor - sensação esta que não raro acompanha os amantes. Surge das mais diversas formas e não possui um ideal para se amoldar, ao contrário do amor carnal, que sempre compara e espera. A amizade é um amor que flui, e que com a convivência é fomentado e traz tesouros preciosos àqueles que o cultivam.

E é justamente porque a amizade é mais leve que se esvai mais facilmente, mesmo contrariamente à vontade dos amigos, pelo distanciamento. A amizade nasce e cresce no âmbito de convivência mútua (escola, trabalho, cidade, rua, clubes, igrejas, paradas de ônibus etc). Como hoje em dia os destinos são traçados com amplitude individual muito maior que outrora, é quase impossível que amigos cresçam e convivam intensamente durante o resto de suas vidas juntos. Muda-se de trabalho? Mudam os amigos com quem se convive. Muda-se de cidade? Mudam-se os amigos, idem. A amizade, em sua práxis, é condicionada à intensidade da convivência. A vida como ela é.

Contudo, o amor-amigo não morre. É ele que faz com que amigos distantes se encontrem e sintam-se eufóricos, sentindo-se plenos como se tivessem se visto há poucas horas. Desconheço coração em que não caiba mais uma bela amizade, sem que isso implique o uso do espaço de outra. Mas o tempo, esse não dividimos igualmente entre os amigos, porque passa por nossas mãos sem o percebemos e nos é impossível deter seu curso. Eis, então, o paradoxo: a amizade (convivência) vai, enquanto o sentimento dos amigos (amor) fica.

Essa constante mutação de amigos, que não me agrada muito, friso, é uma realidade. Respeitando opiniões contrárias, só não enxerga quem não quer. Isso tudo pode ser bom, ou não, de acordo com o olhar de cada um. Toda a gama de instrumentos de comunicação torna viável o conhecimento raso de um sem número de outros passageiros da nave Gaia. Essas possibilidades permitem o contato e a troca de experiências entre diferentíssimos, o que é interessante, sem dúvidas. Entrementes, muitas vezes faz com que acabemos por não conhecer ninguém tão bem quanto aqueles amigos vizinhos que, morando próximos, estudaram na mesma escola, jogaram futebol juntos durante toda a vida e possuíam interesses semelhantes.

Enfim, nada mudou, só o tempo passou e a vida seguiu, o que não impede novos e ótimos futuros momentos de amor fraternal, que não devem ser muitos, mas como Vinícius, serão eternos enquanto durarem.

Bem disse aquele que lembrou que os amigos são a família que nós mesmos escolhemos.